segunda-feira, 11 de março de 2013

Todo dia

É mesmo assim, todo dia o cara acorda disposto a conquistar o mundo, desencosta sem pressa a cabeça do travesseiro e vê a claridade do quarto desencorajar sua vontade; descansa outra vez no leito macio. Pensa por uma ou quatro vezes sobre suas missões diárias, repensa o querer, briga com o instinto, com o objetivo, se deixa estar estático em prol da preguiça que lhe consome, em prol da falta de ânimo que lhe engole, o sedentarismo maldito que lhe cerca e lhe faz refém...
E me vêm as lembranças,
as lambanças
cresce a pança
nessa vida mansa
morro sem esperança, eterna dança...
Mas não tenho atitude pra mudar, vejo que o placar vai se mostrando favorável a mim, vejo que a alegria me acerta em todos os momentos que me ponho a querê-la , enxergo no fim do tudo um mar de possibilidades, moedas a voar, essa minha mania de otimismo, de querer realizar tudo amanhã, tudo depois de amanhã, supondo que terei sucesso na minha empreitada futura, esquecendo que o hoje é tão valioso, tão importante quanto quaisquer dias tediosos que venham pela frente.
É um ciclo sem vergonha, uma roda gigante a girar sobre mim, um infinito tenso e chato que vai me colocando a par dos meus pecados capitais, meus melhores erros...

quarta-feira, 6 de março de 2013

Com razão

Eu vou te colorir, vou te pintar nas minhas cores, preto cinza roxo vermelho, vou te machucar até suas lágrimas escorrerem aos baldes, prometo que te faço sofrer com muito carinho, te pego na escola, encho tua bola, te largo no meio do caminho, te desovo, te ridicularizo, te faço infeliz, e te amo, te bato sem amor, te bato sem pedir, te coloco com a cara virada pro chão pois lá é tua casa, piso no teu sentimento com a força que eu roubo de ti, tua fraqueza é minha energia, teu medo me alimenta, tua vontade e tola, é suja, é vã, te beijo com tesão, te arranco o ar, a pureza, os cabelos, raspo tua falsa inocência, planto no solo suas verdades incríveis e faço nascer podres mentiras, te ignoro, te xingo, vou te maltratar até que o destino diga que estou certo, te faço cafuné, vou gritar pra que todos ouçam e saibam o quão terrível tu és, mesmo não o sendo, vou partir pra dentro sem dó, te impugnar, te bandar, te empurrar, te matar... e chorar de saudade de ti.

Charuto de Rasta


Tava na tenda, no abismo do mundo, com minha trupe, com meu bonde nervoso.
Faltava alguém, sempre falta.
O meu sentimento é dos bobos
O meu medo é ridículo
Minha visão, fraca
Meu intento, sucesso.

Tava no esquema, no fundo da taba, conversando solenemente com o pajé.
Faltava nada, só fumaça
Só índio louco,
só Peri Iracema Ubirajara
Saí da taba, fui fumar na praça
Charuto de índio não faz fumaça

Tava na praça, no banco sentado, do lado a pele morena que me coloria
Faltava dor, sempre faltaria
Tava rindo à toa, ninguém disfarça
A tropa sempre passa
O que fica somos nós,
Sempre ficamos.

Toda multidão necessita, assim como um abraço no dia de carência, de um ritmo acima do normal, toda multidão precisa seguir um fluxo constante, um caminho certo, um destino comum, toda multidão está envolvida na fumaça branca que nos une.
E do que adianta o medo, o mal, o bem, e forte e o fraco quando sabemos que o fim é próximo e deitaremos todos em berço esplêndido, leito eterno, fuga desse hospício vida em que insistimos em ficar?

Somos nós, errantes malditos,
caminhantes equívocos
rumo ao destino incerto,
Delírio beleza e deserto
seguindo a alvura da fumaça a subir,
seguindo o sentimento do alheio a nos inspirar,
nos espelhando no que está por vir,
almejando algum lugar chegar...

Hoje não




Mas estou aqui, disposto a receber todas as pedras que os puritanos atuais podem me lançar, estou aqui de peito aberto para as prováveis críticas, com a cabeça levantada perante palavras sutis e outras que possam vir a me machucar, porém cada palavra, cada pedra, cada crítica se tornará uma moeda em minhas mãos a ser lançada no alto infinito do céu, prestes a despencar das nuvens diretamente nos meus pés virada pra mim no lado que mais irá me agradar, cada tristeza é uma alegria travestida, cada lágrima é um sorriso que há de nascer, cada fim de partida é uma nova oportunidade de se pensar no próximo jogo, cada um com seu cada um,
e me deixem em paz.

Pode ser que haja um dia depois de hoje em que o Sol brilhe ainda mais, pode ser que esses dias que chamam de 'amanhã' sejam ainda mais intensos do que esse que conhecemos por 'hoje', pode ser que a vida acorde bem mais perfeita na próxima manhã, pássaros que existem simplesmente para cantar, nuvens que foram desenhadas, não para trazer chuva ou trovões, mas sim para decorar um pouco mais o azul gritante do céu, sorrisos e sorrisos, muito além de sorrisos, os motivos dos sorrisos e o mundo se garante por si só, daí em diante nada do que se pense de ruim pode ser tão terrível...
Pois responsabilidades são pintos pequenos perto de todos os avestruzes que temos que engolir, pois adversidades são merdas ralas perto de tudo que estamos a cagar, pois discussões avulsas são casebres humildes demais perto de todos os palácios que estamos construindo, e menos. Muito menos que isso, adoradores de Deus.
Bailei, parlei, burlei, parei e ninguém vai dando ouvidos ao que mais faz barulho no momento que é o silêncio absoluto do nada.
Temendo saber, a maioria das pessoas se preocupa, e por isso corre atrás de informações desnecessárias rumo ao caminho escolhido, pois como andam, ou como correm, chegarão da mesma maneira; cansando-se ou não.
E me vem o plágio; "fico triste amanhã, hoje não.
hoje não.
e amanhã digo a mesma coisa."
Pois amanhã é a infinita multiplicação das possibilidades de alegria que hoje eu pude ter. Só por saber dos caminhos novos a serem percorridos, e dos velhos e ruins que não mais o serão.
Pois o que temos são moedas nas mãos, uns bocados na direita, outros bocados na esquerda, moedas da sorte prontas para serem lançadas ao alto, prontas para nos mostrarem aquele outro lado história, o lado que nos joga nesse labirinto de indecisões, onde todos os caminhos são certos e a dor fica de lado... talvez, dirão alguns, que esse lado que tanto almejamos enxergar após o pouso da moeda da sorte seja o amanhã, esteja implícito no amanhã que é o que buscamos para esquecer de hoje, talvez de ontem, ou de tudo de podre que temos dentro de cada um de nós.
Troquem suas notas incríveis por simples moedas, e sejam felizes.

Melanina é mel de menina


Disseram os mais sábios, esses que se dizem conhecedores de alguma sabedoria, que as carnes que nos envolvem jamais poderão se comparar à carne que nos alimenta.
Tolos.
Vai preta, passa esse bronzeador no corpo como fosse o último dos óleos a existir e como fosse a pele tua, a melhor das peles para se acariciar, saboreia essa lata quente de cerveja em tuas mãos, cada vez mais aquecida pelo calor que desce dos céus desse Sol que há tanto tempo não nos felicitava dessa maneira; queima esse corpo moreno ainda mais para que tenhamos certeza que tua melanina é doce como mel de menina; doura esses pelos, colore essa vastidão, pinta de amarelo o que se opõe ao marrom, traz o glacê do creme que se espalha em ti e dá vontade de se espalhar pelo chão até atingir a todos, até que todos estejam numa só cor, perdidos no mar de areia abundante que é esse paraíso que chamamos lar, pinta teu corpo em quantas cores quiseres, preta, pois o mar é teu, o sol é teu, o céu é teu, és tudo teu e de mais ninguém...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cine Odeon


Cine Odeon no RJ
Não pedi bons sonhos antes de dormir, me deitei e deixei que a vida entregasse ao sono o que de melhor eu tenho feito.
O que se vai é, de fato, o que não deveria ter ficado, tenho minhas idéias todas muito bem concluídas a respeito de assuntos relacionados a isso e não me arrependo de nenhuma das minhas viagens em direção a esses desconhecidos mundos de poucas amizades. Sou dado, simpático, presidente, astuto, e convencido.
Meu erro se mede na proporção direta em que o meu acerto se dá. Não irão cometer a injúria de me comparar, não poderiam...
E quem me acompanha também tem o seu mérito no andamento desse barco em águas revoltas, ainda que caia a chuva, nosso sentimento se elevará aos céus como a tempestade que não foi vista, ainda que venha o vento, nosso poder se engrandecerá como os tornados que não derrubaram árvores, ainda que as ligações atormentem o homem, ausências de tecnologia os trarão pra perto do prazer...
Algumas noites são mais intensas que outras. Tenho certeza disso.
Meu Deus me deu uma verdade que não posso deixar escapar. Não sou desses que encara troncos de árvores como possíveis instrumentos de suicídios assim que um pequeno ou grande problema se abate contra a vida, não sou de baixar a cabeça quando me vejo perdido em meio a infortúnios, rodeado de confusão, não sou de perder a vontade de gastar quando o bolso tosse poeira, por isso me dou por vencedor em cada dor, por isso me levanto sem pestanejar, trabalho meu trabalho sem ouvidos outros, sem bocas estas, pensando em bocas outras, ouvindo orelhas aquelas...
Meu passado é a glória do meu viver, meu combustível diário. Verdade essa que meu Deus me mostrou, num simples gesto de conivência, um fechar de olhos para o erro comum, o ventre sagrado do Senhor a acalentar minha cabeça sofrida embebida em negrume de fios longos, paixão arrebatadora como fosse tons de preto, quiçá 50 tons...
Mas saiamos desse calor, deixa eu me aconchegar nos finos pingos de chuva que despencam do céu pra refrescar a quentura dos corpos, deixa eu rever as apostas pra eternizar o momento, deixa que os sorrisos calem o motivo de que dizem, entre bocas, que da língua melhor uso se faz em silêncio.
Muitos duvidam de mim, e de todos eles, quem duvida sou eu.
Galgo meus lugares um pouco mais suavemente do que antes, porém retas finais também decidem campeonatos, quem entende de arte me compreende. Seus números não são convincentes quanto a minha qualidade, seu furor de jovem não se compara a minha devassidão experiente, seus movimentos rápidos não alcançam prazer como os metódicos e bem encaixados do meu ir e vir...
Vou deixar no ar as minhas vontades, vou de novo como nos tempos de garoto, desenhando em letras todas as formas de juventude abalada que venho lendo nesses últimos dias, clamando numa dança suave as palavras sussurradas em virgens ouvidos, Miguelitos literais e drogados não se enxergam em mim, mas bem que poderiam se inspirar, meus horrores hão de prevalecer pois na sapiência do homem de bem se revela a arte de escrever.
Quererei lágrimas dessa vez.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Nos íntimos do sentir

Ah, o ódio fraternal que alimentamos em nossos mais íntimos desejos, em nossos mais loucos pesares, nossas matérias baseadas em palavras ou ligações perdidas e sem nexo a nos acompanhar sem mais, a nos golpear sem menos, o que se diz ou o que se ouve, nada mais é tão importante quanto o ego inflado, absurdo intento que nos atinge em quartas de frio, ou nos faz sentir saudade nas semanas distantes...
Ah, esse amor adolescente, esse excesso de promessas, essa dor pungente que nos rasga o peito transbordando nossos corações em lágrimas, afogando nossos olhos em noites terríveis de celebração, em manhãs maravilhosas de café da manhã, em amores eternos que só se fazem eternos por serem vistos como primeiros, um dia quem sabe, derradeiros.
Ah, esse fulano sem jeito, esse idiota descomunal, com suas frases de impacto, colocações  soltas risos bobos olhares de brilho tolo, como se faz isso? já não me lembro de ver um desses por aí há tempos, já não consigo mais entender de onde saíram, não absorvo a maldade que se encontra em suas intenções, não aceito o ódio fraternal que fazem tanta questão de alimentar e jogar em meus olhos...
Ah, que saudade do meu tempo, que saudade das minhas manhãs de café, que saudade eterna do que era primeiro, jamais se tornou derradeiro, muito menos eterno, quando o compromisso era só palavra no vocabulário e tudo se resumia a um medo estranho, a uma boca seca, ao tremer de minhas pernas grossas, bem torneadas, digam lá, vocês...
Ah, mas não há de ser motivo de tristeza, não há de ser motivo de preocupação, pois vamos todos juntos, vamos numa só voz rumo ao destino comum, todos remando, içando velas enormes dando força à força, soprando com o vento, mãos dadas, braços unidos, vamos pois juntos somos fortes, deixando de lado todos esses sonhos, fazendo valer nossas vontades, e se tremerem nossas pernas, que bom, se suarem nossos corpos, mais alegria, que nossas bocas sequem em favor do silêncio pra que o melhor uso da língua seja feito...
Ah, mas é tudo em prol do sentimento, do amor, do que faz bem. E o que faz bem fica pra sempre.