sábado, 20 de fevereiro de 2010

Retalhos de cetim do meu carnaval - II

E eu que nada tenho a ver com isso, ia me chegando devagar, sem pressa de correr, medindo meus passos curtos rumo ao local do sentimento antigo. A máquina trabalhadora de nossa cidade carioca ia voltando pra casa descendo a ladeira do amor enquanto eu ia subindo em busca da 'paixão primeira' que faz um homem nascer, crescer e morrer satisfeito. O fluxo não me via, o fluxo ia contra mim, o fluxo desvia de minhas intenções pois sabiam todos que eu fazia parte de uma nova geração onde o amor é a única coisa que interessa, ainda mais em tempos de Carnaval como este que vamos passando. E se passa, o bloco também há de passar...
E por mencionar o fato dos trabalhadores, ali por meados da caminhada, justamente quando já me aproximava com mais força do som que vinha do fundo da montanha deitada aos pés do vale de Campo Grande, apareceram-me algumas senhoritas de duvidosa índole, com roupas minúsculas, portadoras de prováveis doenças venéreas e coisas do tipo, a abordar outros trabalhadores dentro de carros que, por vezes, de fato, paravam para escutar o que tinham a lhes dizer, as tais meninas. Pois que eu ia andando, observando e cantando, quando me surge essa coisinha...:
“E não vá por aí, ó rapaz da blusa preta das falsas trevas, da calça cinza dos meus olhos quando te enxergam e dos chinelos brancos como o véu que cairá sobre meu rosto quando nos unirmos em matrimônio. Vá por aqui, adentre aqui em meu humilde local destinado ao amor momentâneo em troca de míseros trocados, talvez para que eu alimente, honestamente, meus filhos; talvez para que eu me drogue e bote um fim na minha vida dedicada a prostituição, sem sombra de dúvida para a dor que sempre me acometeu como também para um certo prazer que sempre senti. Vá por aqui, venha por aqui, deixe que eu te indique o caminho do meu bloco. Não se acanhe, não se amedronte, me dê sua mão caso ela fraqueje... sou tua essa noite e só vou cobrar 10 conto pra fazer boquete, dar o cú e buceta... e aí, topa?”
Surpreendi-me... surpreendi-me...
Um adendo em vazio é dedicado às palavras sensatas da culta puta que me abordara.
Pois então adientemos o passo para que a festa tenha logo seu início, mas não sem antes mencionar o fato das meninas poderosas que estavam lá comigo admirando meu andar, minha capacidade de articular frases jamais ditas com tanta graça que lhes fazem saltitar como lebres loucas, ou quem sabe como gazelas famintas, talvez como piriquitas doentes...

Ok... uma lebre, uma gazela e uma piriquita...
Talvez não se lembrasse, talvez não quisera se lembrar. Até admito que a segunda opção se enquadre mais no reflexo do rosto daquele rapaz tão humilde e intenso para com seus clientes, perdido em uma esquina da festa, largado com seu querido carro recheado de líquidos que dão a alegria. Lembrar do rosto de Leila e seus olhos azuis esverdeados poderia ser para ele uma das maiores dores que um homem pode sentir em vida, e até mesmo em morte. Pois quando o amor toma conta da pessoa não há nada que o faça acabar a não ser uma ponte bem alta ou um tiro certeiro. O senhor camelô, vendedor de cervejas e vinhos, me disse que não se lembrava muito bem de nossas feições, mas logo após o dinheiro do produto estar em suas mãos, fez total questão de tratar-nos como antigos amigos, que éramos mesmo.
E apaixonou-se mais uma vez, mesmo sem lembrar da primeira. Essa Leila apaixona, faz esquecer, apaixona de novo. E ponho em questão a tese famosa que costumam divulgar pelos quatro cantos do mundo de que um mesmo raio não há de cair num só lugar duas vezes. Pois digo aqui nesse momento que no ano que vem, se adentrarmos mais uma vez no tal bloco, com a permissão de Deus, tenho certeza que mais uma paixão fulminante tomará conta do corpo daquele humilde vendedor de cervejas quentes...
Foi-se o autor de tais palavras embora, deixando a saudade de mais um ano no local prometendo estar lá em outras ocasiões sem cura de saber em quais estados de caráter, de espírito, de mente...
Pois o dia era somente o que estava por nascer uma vez que a madrugada dava sinais de adentrar em minha vida naquela sexta feira abençoada pelos deuses da felicidade. Era momento de acalentar meu corpo no leito do descanso, nos braços mórbidos de Morfeu pra que as Luas seguintes pudessem dar-me a glória necessária a todo homem que busca a aventura do desconhecido.

Um comentário:

Leilinha disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk...
AdOOrO