quarta-feira, 19 de maio de 2010

O dia C III

Sabem vocês, e se não sabem eu vos conto, de uma certa intenção de homem, deixando de lado a parte do ser humano, uma intenção de ser feliz, uma intenção de fazer o bem, essa mesma intenção de estar gravado na mente de várias pessoas, esse meu antigo desejo de querer ser imortal, de morrer e continuar vivo pelo menos no coração de quem me queira bem, quem sabe eternizado em palavras, e os jovens, todos sedentos de prazer, e as meninas virgens dando seus gritinhos loucos lendo minhas idiotices, lembrando com alegria da minha felicidade. Estaria eu, quem sabe no céu, ao lado de Pedrinho olhando lá de cima toda essa falácia, e sorriria feliz...
Um trem me aguardava, provavelmente cheio, pra me levar ao destino que tanto não gostaria de estar, mas a responsabilidade do dia, as contas de cartão que chegam lá em casa e tudo mais que eu gosto de fazer e comprar me obrigavam a trabalhar sorrindo. Subia devagar a rampa da passarela da estação. Estava feliz naquela manhã, nada me incomodava, tinha um propósito de vida, e via que era bom.
Ainda não tinham nascido os primeiros raios de sol quando fui atraído pelos seus lindos olhos verdes.
Sim, queridos, eram olhos lindos e verdes os daquela mulher que estava do outro lado da grade, vendendo os bilhetes que me dariam possibilidade de adentrar na estação, pegar meu tão valioso trem e chegar no hospital. Certas vezes me deixo levar pela magnitude de um instante e os fatores externos possuem meu corpo e me tornam escravos de mim mesmo e de meus desejos secretos. Uma moça assim tão bonita vendendo bilhetes?? Que cruel pecado do mundo...
Talvez eu ainda estivesse inerente ao que se desenrolava em minha volta, e essa transição da madrugada para o dia, e a despedida da mãe Lua dando as mãos para o rei Sol, e essa natureza bela que se refletia num céu pronto para nascer tal qual os olhos da deusa que prostrava-se frente a mim.
E não podia mais me abster da verdade, certas coisas que sinto em todas as ocasiões de sentimento em que me vejo cercado, toda a sinceridade do amor que não me pertence e isso que morre e nasce dentro de mim várias vezes por dia. Resolvi abordar o que não podia mais se esconder.
E falei da minha doença.
Disse-lhe, com toda a sinceridade que me é peculiar, sobre as dores que meu coração já sofrera e esse medo eterno que sinto de que tudo se repita, de imaginar por um instante que alguma coisa saia errado e eu faça sangrar o meu sentimento e o da pessoa amada.
Retirei-me para que pudesse descer as escadas e adentrar no trem que já me aguardava apitando enquanto o maquinista gritava na porta que era a última chamada, rumo à Central do Brasil. Despedi-me e parti.
Já dentro da locomotiva, essa maravilha da tecnologia moderna, onde o ar condicionado é ligado sempre no máximo para congelar os trabalhadores que acordam 4 e meia da manhã, forçando-os a ficarem doentes e poderem pegar dias e mais dias na UPA mais próxima de suas residências, ia pensando, enquanto procurava um lugar para sentar e tentar descansar um pouco depois de duas grandes conquistas que já havia conseguido realizar antes mesmo de o dia amanhecer. Já sentado e devidamente acomodado, pus-me a fechar os olhos e relaxar por alguns instantes.

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